Linha_6

04/08/2025

Linha 6

Educação para avaliação e tomada de decisão sobre riscos civilizatórios

Coordenador: Prof. Dr. Maurício Pietrocola

     Desde a sua gênese, o projeto temático se compromete à repensar a formação dos professores de ciências de uma maneira integrada. Isso explica a centralidade e a relevância atribuídas ao conceito “interdisciplinaridade”. Nesse contexto, algumas questões essenciais se impuseram à equipe, como por exemplo: integrar conhecimentos? Sim. Mas com que objetivo? Para respondê-la, a linha 6 considera como um fator essencial, repensar a fragmentação que caracteriza toda a tradição ocidental tanto no que diz respeito à produção de conhecimento, quanto ao seu ensino e a formação de professores. A criação das ditas “disciplinas de conhecimento”, permitiu avanços como a hiper especialização atual das ciências, o aprofundamento e a estabilização do conhecimento construído pela comunidade científica. Em parte, o valor de tal conhecimento se localiza justamente no fato de que sua construção separa o objeto de estudo do seu contexto. Porém, quando se trata de enfrentar os problemas da vida cotidiana e principalmente as questões contemporâneas mais relevantes, esta abordagem apresenta sérios limites.

     Face a essa demanda, duas novas frentes de pesquisa foram criadas pelo projeto em seu terceiro ano de operação: as linhas 5 e 6. Elas dedicam-se, respectivamente, aos desafios contemporâneos do currículo escolar e aos riscos civilizatóri-

os, que representam os limites da abordagem disciplinar descrita anteriormente. Cria-se assim um cluster que interage com as demais linhas de pesquisa do projeto, na busca pela compreensão do que seria uma proposta curricular integrada que correlaciona o antropoceno e os riscos civilizatórios que o acompanham. Ele opera ainda em profunda sintonia com a linha 4, que se preocupa em estudar o papel e o potencial da tecnologia solucionando, contribuindo e, ao mesmo tempo, gerando novos problemas que, por sua vez, deverão ser compreendidos e gerenciados.

     Para compreender a importância do trabalho é necessário perceber que muito além de uma contribuição quanto a formação de professores para que eles possam lidar com as demandas contemporâneas, a investigação conduzida na linha 6 materializa a presença do que pode ser descrito como uma nova matriz epistemológica. Ela permite a releitura completa de todo o atual

Pesquisadores associados

  • Prof. Áurea Ianni  (Faculdade de Saúde Pública / USP)
  • Prof. Paulo Rogério (EACH / USP)
  • PhD. Rafaela Samagaia (IEA / USP)
  • Prof. Samuel Schnorr (Instituto de Biologia / UNB)
  • Prof. Ernani Rodrigues (Departamento de Física / UFES)
  • Prof. Tarcilo Vallois (Faculdade de Educação / Universidade Pedagógica de Medelin)
  • Prof. Néstor Alexander Zambrano González (Universidade Nacional de Bogotá)
  • Profa. Olívia Levrini (Departamento de Física / Universidade de Bologna)

processo de construção do conhecimento, de tecnologia e de artefatos sociais (comumente associado à perspectiva CTS). Além de ressignificar as interações entre esses elementos, a nova matriz tem a função de integrá-los com a ideia de ecossistema global, de modo que a preservação das condições de vida no planeta possa ser incluída na tomada de decisões e considerada como uma prioridade. 

     Para isso, a pesquisa desenvolvida pela linha 6 tem seu foco representado em duas palavras-chave: risco e incerteza. Os trabalhos realizados pelo grupo estabelecem suas bases nas ideias de dois autores de referência, os sociólogos Ulrich Beck e Anthony Giddens. A perspectiva de ambos converge na conclusão de que os grandes desafios da contemporaneidade podem ser percebidos não como erros a serem evitados ou males a serem combatidos, mas sim como o resultado ou a consequência de ações produzidas dentro da própria matriz de desenvolvimento social. O contexto que gerou a demanda pela criação do termo antropoceno materializa esse debate. Ao se observar os argumentos propostos, fica clara a ideia de que os problemas enfrentados nesse período são a consequência direta do processo que permitiu o que poderia ser chamado de “progresso”. Por exemplo: o uso intensivo de combustíveis fósseis barateou o transporte e o uso da energia permitindo a automatização de processos de todo tipo, bem como muitas das evoluções sociais conhecidas e valorizadas atualmente. Ao mesmo tempo, ele também gerou uma grande quantidade de gases que estão presentes na atmosfera, contribuindo com a mudança do regime de funcionamento do clima no planeta e ameaçando o sistema que sustenta a vida na Terra. Esse efeito não foi nem poderia ter sido identificado no início do processo de industrialização, ainda que seja um desdobramento dele. 

    Assim, se por um lado existe a necessidade de se compreender o aquecimento global na perspectiva de um conhecimento disciplinar (que poderia ser o da termodinâmica da atmosfera ou a sua composição química por exemplo), sabe-se hoje que o somatório das conclusões obtidas em abordagens isolada, não permite compreender o que está acontecendo no mundo. Sim, é necessário dispor do conhecimento especializado mas é também indispensável integrar esses conhecimentos para que se possa discutir a gestão das situações enfrentadas e, quando possível, a melhor solução para os problemas.

    Nesse contexto, o processo através do qual se dá a tomada de decisão também precisa ser revisto. Se antes ela se fundamentava prioritariamente na seleção dos especialistas (a quem se confiaria a análise) e ao respeito da instrução por eles fornecida após o estudo da situação, hoje, o diálogo e a diversificação dos argumentos considerados parecem ser alternativas mais ajustadas. Além disso, partindo da ideia de que as incertezas fazem parte de todo desenvolvimento e que os riscos são inevitáveis, a tomada de decisão precisa contar com um número maior de sujeitos se quiser ser percebida como sendo legítima. E se os especialistas ocupam um lugar de destaque nesse grupo, há um conjunto de outros perfis que precisam ser incluídos. Por exemplo, deve-se ter em mente aqueles que serão direta ou indiretamente atingidos, no presente ou no futuro, pelas consequências indeterminadas e inevitáveis das decisões tomadas no presente. Essa perspectiva altera profundamente as demandas que se apresentam à uma educação comprometida em formar sujeitos responsáveis e habilitados a lidar com a complexidade dos problemas enfrentados no presente e no futuro.

Palavras chave: risco, incerteza, complexidade, antropoceno.

Estudantes de graduação e pós-graduação:
  • João Pedro Ghidini / Doutorando – Bolsista CAPES (IF/USP)
  • Leandro Nascimento e Silva  -Doutorando / Bolsista FAPESP (FE/USP)
  • Gabriel Lanzillota Merlo – Doutorando / Bolsista CNPq (IF/USP)
  • Júlia Ogata – Doutoranda (PIEC/USP)
  • Lyon Salute – Doutorando (PIEC/USP)
  • Pina Di Nuovo Sollero – Doutoranda (PIEC / USP)